Por que o silêncio é tão importante na psicanálise?
- Hélio Laureano

- 3 de jul.
- 3 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Não é privilégio da Psicanálise pensar no silêncio. Silêncio é sobre a vida. Podemos pensar o silêncio, primeiramente, como um espaço. Segundo a teoria evolutiva, houve um período no tempo em que os seres humanos ainda não usavam palavras, talvez nem sons específicos. Usávamos gestos para nos comunicar. Com as eras aprendemos a criar e a usar palavras. Isso se tornou muito estimulante. Mas, ainda assim, os homens na antiguidade guardavam um tempo solitários. Uma música sem breves espaços de silêncio pode se tornar estranha, cansativa e perder sua forma estética. Depois de um dia inteiro de conversas e interações, o espaço que o silêncio promove pode ser como um remédio para a recuperação e a reorganização. E como costuma acontecer em relacionamentos saudáveis, o silêncio é uma forma de confiança, segurança e calma.Foi exatamente isso que Winnicott expressou em 1958, sobre o silêncio na Psicanálise, através de um artigo intitulado The Capacity to be Alone:
“Em quase todos os nossos tratamentos psicanalíticos há ocasiões em que a capacidade de ficar só é importante para o paciente. Clinicamente isto se pode representar por uma fase de silêncio, ou uma sessão silenciosa; e esse silêncio, longe de ser evidência de resistência, representa uma conquista por parte do paciente.”
(“In almost all our psycho-analitic treatments there come times when the ability to be alone is important to the patient. Clinically this may be represented by a silent phase or a silent session, an d this silence, far from being evidence os resistence, turns out to be an achievement on the part of the patient.”)

Diariamente, as pessoas com quem converso verbalizam ou demonstram incomodo e constrangimento em momentos de silêncio. Nem sempre há o que ser falado. Existem vezes onde acontece de esquecermos o que queríamos dizer. Muitas vezes, quando nos
desarmamos, percebemos que estamos evitando falar verdadeiramente sobre o que está acontecendo e falamos intermitentemente para preencher um vazio. Descobrimos que não falamos realmente. Então, precisamos de um espaço para deixar vir. Há também o pensamento de que, pelo fato de estarmos conversando, precisamos produzir algo, tirar o máximo de proveito ou fazer valer o pagamento. Mas, o que deixamos de perceber é que o silêncio faz parte natural da conversa e do processo. Há silêncio em tudo o tempo todo, especialmente se estivermos dispostos(as) a permitir. Para além do constrangimento, o silêncio num encontro analítico pode se tornar um descanso ou uma oportunidade.
Quem pratica ou tentou praticar meditação se deparou com uma mente que não pára, como se tivesse outra pessoa falando e produzindo conversas e pensamentos, enquanto tenta ficar quieto(a). Como psicanalistas, fomos incentivados por Bion a “desenvolver a capacidade de tolerar o não saber, suportando o vazio, a escuridão e o silêncio na sessão sem a busca irritadiça por razões ou fatos.” Se não adotarmos essa postura, nossa tendência é tentar achar soluções precipitadas, entender coisas que precisam de mais tempo para ser compreendidas e precipitarmos uma melhora. O sofrimento e a dor fazem parte da vida. Não há possibilidades de uma vida sem elas.
Então, ao falarmos sobre nós, ou, ao ouvirmos alguém, o silêncio se torna também uma expressão de respeito pela história da pessoa.
Mas, em especial, o silêncio permite que você fale coisas diferentes daquelas que você costumeiramente tem falado, explicado e sentido. Como nossas mentes costumam não parar sozinhas na modernidade, permitir o silêncio na análise possivelmente ajudará a trazer para fora coisas que você não se dava conta ou nem mesmo lembrava. Então, em sua próxima sessão não se preocupe exageradamente com ter o que falar. Permita que o tempo e o silêncio mostrem coisas novas sobre você.


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